quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Aparição #1

« A mancha da lua fosforesce como o vapor de uma lenda. Um bafo quente sobe dessa água, sagra-me de silêncio como um dedo na fronte. E outra vez agora me deslumbra, em alarme, a presença iluminada de mim a mim próprio, o eco longínquo das vozes que me trespassam. Como é difícil, miraculoso, pensá-lo. Quanta coisa aprendi e sei e está aí à minha disposição quando dela preciso. Mas esta simples verdade de que estou vivo, me habito em evidência, me sinto como um absoluto divino, esta certeza fulgurante de que ilumino o mundo, de que há uma força que me vem de dentro, me implanta na vida necessariamente, esta totalização de mim a mim próprio que me não deixa ver os meus olhos, pensar o meu pensamento, porque ela é esses meus olhos e esse meu pensamento, esta verdade que me queima quando vejo o absurdo da morte, se pretendo segurá-la em minhas mãos, revê-la nas horas do esquecimento, foge-me como fumo, deixa-me embrutecido, raivoso de surpresa e de ridículo... E, todavia, sei-o hoje, só há um problema para a vida, que é o de saber, saber a minha condição, e de restaurar a partir daí a plenitude e a autenticidade de tudo - da alegria, do heroísmo, da amargura, de cada gesto. »

Vergílio Ferreira em "Aparição"

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

"Estranha forma de vida"

O que sou eu? O que faço aqui?
Questiono-me enquanto saboreio a frescura que a sombra de uma imponente árvore me proporciona, neste fim de tarde de verão. Uma cálida aragem afaga a expressão distante do meu rosto e eu, absorta nos meus pensamentos, procuro uma resposta em quase tudo o que me rodeia. No mais recôndito recanto interior meu, eu procuro a essência das coisas e o sentido da minha própria existência. Instantes depois, fito o solo e algo me capta a atenção: não o sei definir ao certo, tal como a mim não sei. Porém, é um ser, é uma forma de vida, degradada ou não. Que estranha forma de vida: não só aquela, não só a minha... Afinal, porque estou aqui? Sei apenas que existo e que sou um grão de areia num universo sem fim; Ou existirá um fim? Que estranha forma de vida...

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Perdoem-me a prolongada ausência de comentários nos vossos cantos. Estive longe daqui, mas voltei. Obrigada por todas as vossas palavras que cada vez mais me emocionam e surpreendem.
Um abraço intenso,
S.

sábado, 15 de Agosto de 2009

Lado a lado...

[ Fotografia: S. ]

... na areia molhada de uma praia longínqua, juntos renascemos.

sábado, 1 de Agosto de 2009

Uma só alma

Esta noite, sinto-me só. Sinto-me apenas envolta por este silêncio ensurdecedor que quase me petrifica os sentidos. Opto por quebrar a monotonia e dirijo-me à varanda desta ampla sala. Fixo o olhar no quarto crescente lunar. Oiço, atentamente, alguns murmúrios nocturnos. Uma gélida aragem percorre-me a pele e arrefece-me o corpo, num arrepio de alma. Penso em ti nesse preciso instante. Recordo o quanto os teus gestos são, para mim, inebriantes, mas sei porém que não quero aprisionar-me em mares de profundas ausências e saudades. Sonho-nos, portanto, inseparáveis, como dois corpos distintos que se aglutinarão numa só alma, num anoitecer próximo.

terça-feira, 21 de Julho de 2009

Afectos

Sento-me aqui, no mesmo local onde te vi pela primeira vez e relembro esse momento. A falésia está igualmente bela e a sua imponência parece querer sobrepôr-se à imensidão do oceano. Apenas consigo escutar as gaivotas e o marulhar, ao longe. Fecho os olhos, calmamente. Inspiro e expiro, profundamente. Recordo-me que te implorei que viesses. Desejo ver-te quando os abrir. Envolvo esse desejo em saudade e sussuro-o à brisa suave que me afaga o rosto em jeito de consolo.
- Todos sabem que não vens, menos eu. -
As pálpebras pesadas erguem-se, pouco a pouco. Caio em mim. Deixo de sentir o passar dos segundos a corroer-me as entranhas. Tomo consciência de que nada mais significo para ti. Agora sei que não vieste nem virás mais, mas também sei que não te pedirei mais que regresses. O encanto dissipou-se na brisa que há pouco me afagara o rosto e eu aqui continuarei até o sol desaparecer, por completo, no horizonte. Guardo em mim, somente, a memória dos afectos.

domingo, 12 de Julho de 2009

Rumos

[Composição Fotográfica: S. ]

Ao longo de uma vida existem momentos em que se torna essencial mudar.
Desapertar os laços e mudar o rumo dessa mesma vida.
Traçam-se objectivos.
Fecham-se os olhos e inspira-se esperança.
E de braços abertos acolhe-se o futuro.
Um novo rumo surge.
Deixemos fluir.

quinta-feira, 9 de Julho de 2009

E vocês, sorriem comigo?

Há momentos em que o que mais nos apetece é desistir, deixar tudo para trás e desaparecer. Desejamos tornar-nos invisíveis ou encontrar um refúgio. Em vez disso podemos, simplesmente, sorrir. É tão mais fácil e agradável sorrir. Sorrir para a vida, para os que verdadeiramente de nós gostam, para uma paisagem bela e tranquilizante, para um dia de sol esplêndido como hoje e para todos os problemas e tristezas. Sorrir pode ser uma boa solução. Um sorriso sincero pode significar tanto ou mudar tantas coisas... Eu estou a sorrir. E vocês, sorriem comigo?

"Smile,
What's the use of crying?
You'll find that life is still worthwhile,
If you just smile."
~ Smile, C. Chaplin

quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Diz-me

O amanhecer trouxe consigo os silfos que, desde então, me acompanham na dança dos corpos ao sabor do vento. Sinto-me leve, sinto-me brisa, sinto-me feliz. Hoje, que a felicidade preencheu este vazio imenso que pairava em mim, te peço: diz-me se sentes; diz-me o que sentes; juntos percorreremos, descalços e sem amarras inúteis, estas searas de amor que nos rodeiam e sobre elas libertaremos pétalas nos caminhos contra o tempo para que, mais tarde, saibamos onde nos reencontrar.